A semana em que Bolsonaro desMOROnou

Na mesma semana em que Bolsonaro participou de manifestações que pediam um novo AI5, o que evidencia ainda mais a ameaça que ele representa à democracia, Bolsonaro conseguiu surpreender novamente até mesmo seu eleitorado, ao exonerar o diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Leite Valeixo e culminar no pedido de demissão de Sérgio Moro.

Por interferir diretamente sobre o trabalho da PF e passar por cima de Moro, o até então ministro da Justiça e Segurança Pública demonstrou reprovação e pediu demissão do cargo, oficializado em uma coletiva de imprensa feita hoje pela manhã.

Moro disse que é inadmissível que um Presidente intervenha no trabalho da Polícia Federal e quem nem mesmo Lula ou Dilma fizeram isso durante a investigação da Lava Jato.

Apesar dos motivos para a exoneração de Valeixo não terem sido esclarecidos, é no mínimo suspeito o interesse do Presidente em colocar alguém de confiança no lugar de Valeixo em meio a uma investigação da PF que busca investigar familiares de Bolsonaro.

O próprio Moro destacou que Bolsonaro demonstra ter preocupações em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) e querer informações sigilosas sobre os casos, o que não é trabalho da PF. Provavelmente estava se referindo às investigações sobre fake news envolvendo seu filho Carlos Bolsonaro, além das acusações sobre os atos antidemocráticos do último fim de semana.

Se o eleitorado de Bolsonaro já andava oscilando diante das ações questionáveis que ele vem acumulando desde 2018, agora o pedido de demissão de Moro, junto às diversas acusações contra o Presidente, comprometeu sua imagem de “deus do combate à corrupção” de uma vez por todas.

Depois do pronunciamento feito por Moro hoje, Bolsonaro pode ser investigado por 7 crimes. Já no pronunciamento do Presidente feito em seguida, em resposta a Moro, ele deu a entender que o Ministro tentou negociar sua indicação para o STF em troca de permitir que o Presidente interferisse na Polícia Federal.

As alfinetadas entre os dois têm trazido à luz o jogo de poder que sempre os envolveu, e com certa ironia. O mesmo Moro que negou sua parcialidade ao manter conversas com o advogado de acusação no caso Lula, afirmando que conversas por aplicativos de mensagens instantâneas não são provas concretas, agora diz que tem provas contra Bolsonaro, inclusive de conversas por aplicativos de mensagens instantâneas. Moro não é inocente.

De que forma aqueles que enxergavam na aliança entre Moro e Bolsonaro a maior prova de sua integridade vão conseguir sustentar sua defesa ao Presidente agora? Parafraseando, com os devidos créditos, a expressão de Luciana Genro sobre tais acontecimentos, esse pode ser o marco da semana em que Bolsonaro desMOROnou.

Fonte 1
Fonte 2
Fonte 3
Fonte 4

Aline Gasperi
Formada em Letras e com Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina.
Pós-graduada em Bíblia: Interpretação e Comunicação pela Faculdade Teológica Sul Americana.
Participante do EPJ de Londrina (Pr)

A população carcerária e a pandemia: como falar em “isolamento”?

Hoje foi registrada a primeira morte de um detento por Covid-19 no Brasil. Na última segunda-feira, em resposta à notícia de que há casos confirmados em unidades penitenciárias do Ceará, Pará e Distrito Federal —onde há outros 20 suspeitos —, o juiz Sergio Moro afirmou que a situação do Coronavírus em presídios brasileiros está “sob controle”. Mas há controvérsias.

O Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo. Segundo dados do Ministério da Justiça, são cerca de 800 mil detentos.

Destes, cerca de 45% estão presos provisoriamente e nem sequer passaram por julgamento em primeira instância, ou seja, muitos nem deveriam estar ali já que a prisão preventiva é prevista apenas para presos em flagrante ou que ofereçam riscos à população.

O cenário das cadeias e presídios brasileiros é, há muito tempo, de superlotação e há até mesmo rodízio de espaço no chão para dormir. Ali estão humanos invisíveis, com quem poucos se importariam caso sofressem mortes em massa por um vírus.

Rogéria da Silva Martins, doutora em Políticas Públicas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro e pós-doutora pelo Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, apontou que a população carcerária é composta, predominantemente, por negros e pobres.

Rogéria aponta, ainda, que existe uma seletividade nos tribunais que contribui para a contenção desses perfis nas penitenciárias. É, portanto, um sistema, que coloca esses perfis pontuais em uma posição muito mais vulnerável.

A pesquisadora diz que tais fatos, por si só, já mostram o quanto o sistema oprime, mas diante da pandemia esse cenário é ainda mais preocupante. Sobretudo, considerando que as penitenciárias do país têm 200% de ocupação, ou seja, o dobro de presos que sua capacidade permite.

As condições de higiene nas penitenciárias são igualmente precárias. O Estado não fornece o suficiente para as necessidades básicas dos detentos. É comum que as famílias destes presos sejam orientadas a levar semanalmente um kit com alimentos e produtos de higiene nas visitas.

As doenças às quais os presos estão sujeitos frequentemente são tuberculose, HIV, pneumonia, entre outras. Isso já era preocupante antes do início da pandemia. Quanto mais agora.

Não existe “evitar aglomerações” e regime de “isolamento social” em uma penitenciária. Com o Covid-19 chegando aos presídios, um único infectado poderia desencadear uma série de contaminações e mortes.

Não seria uma surpresa se o Estado optasse por negligenciar essa categoria para diminuir gastos. Nem seria chocante se a população preferisse que esses presos fossem “condenados à morte”, indiretamente.

Estes ignoram, no entanto, que a doença também pode afetar educadores, agentes de saúde, agentes penitenciários e quaisquer outros trabalhadores ligados ao setor, e que podem levar a doença para além das penitenciárias.

Os gestores públicos precisarão agir para o descongestionamento do sistema prisional se quiserem fazer uma contenção eficiente do vírus. Isso implica em agilizar os processos de julgamento ou ao menos liberarem os presos que não se encaixarem nas condições para prisão preventiva. Processo que exige muita sensibilidade.

Está em curso, de acordo com Moro, um plano nacional de segurança pública com ações para lidar com “diversos cenários e situações projetadas”, só é necessário avaliar se as ações levam em conta a realidade dos presídios e se são preventivas, para além de apenas paliativas e remediativas.

Aos juízes, propomos que avaliem se a forma como estes presos estão cumprindo suas penas estão seguindo a lei e as diretrizes dos Direitos Humanos.

Aos evangélicos, insisto na proposta de pensar na forma como Jesus tratou aquele ladrão na cruz, o prometendo o paraíso, antes de afirmar que a morte destes é justiça divina.

Aline Gasperi
Formada em Letras e com Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina.
Pós-graduada em Bíblia: Interpretação e Comunicação pela Faculdade Teológica Sul Americana.
Participante do EPJ de Londrina (Pr)

Fonte 1
Fonte 2
Fonte 3
Fonte 4

A crucificação e o paradigma do bandido bom

“Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”.

(Lucas 23:39-43)

A passagem de Lucas que conta um dos últimos diálogos de Jesus na cruz, traz luz a um dos paradigmas mais atuais sobre condenação e justiça.

Jesus foi julgado por um sistema legal, legítimo e com apoio popular e das autoridades. Ele foi considerado culpado porque ousou incomodar a um sistema perverso, cuja religião e política se empenhavam para manter uma “ordem” opressora e exclusivista.

Ele foi crucificado sob as mesmas condições que outros dois bandidos. Foi reduzido ao que era mais baixo e impuro. Foi alvo simbólico do discurso “bandido bom é bandido morto”. Curiosamente, o objeto de exegese aqui é um “bandido bom”, no caso o que estava ao lado de Jesus na cruz.

O que há de mais lindo nessa passagem é ver todo senso de justiça própria dos condenadores cair por terra quando Jesus promete, ao bandido bom, um lugar no Paraíso, subvertendo toda a lógica de justiça até então vigente.

Aquele ladrão não foi batizado, não praticou boas obras, não fez discípulos, não pregou o Evangelho, não teve um ministério relevante e provavelmente não teve como provar que amou a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ele mesmo. O bandido tão somente se arrependeu e reconheceu a autoridade de Jesus.

Talvez esse “paradigma do bandido bom”, evidenciado na passagem bíblica em questão, seja um dos mais enxutos e precisos sobre o mistério da salvação e da justiça divina.

Poderíamos dizer que somente isso é necessário para ser salvo e que todo o resto é sujeito a flexibilização, mas cairíamos na tentação de criar mais uma lógica que anula todas as demais. A tentação de afirmar que sabemos mais sobre Deus do que o próprio Deus.

Moralistas dirão que sabem o que é norma para ser salvo e vão tentar enfiar as regras e rituais goela abaixo, mas aqui, nesse quadro, só vemos que a justiça divina não só é diferente da justiça própria como é oposta a ela e até mesmo a compromete.

A Palavra de Deus, estabelece, sim, critérios para os que querem pertencer ao Reino, mas essa passagem revela que nem o próprio Jesus exigiu todos os critérios para salvar um bandido. A interpretação é somente uma: no Reino de Deus, o único que pode ditar as regras de condenação ou de salvação é o próprio Deus.

Feliz Páscoa.

Aline Gasperi
Formada em Letras e com Mestrado em Comunicação pela Universidade Estadual de Londrina.
Pós-graduada em Bíblia: Interpretação e Comunicação pela Faculdade Teológica Sul Americana.
Participante do EPJ de Londrina (Pr)

Oremos pela democracia

“Abandonem a violência e a opressão e façam o que é justo e direito.”

(Ezequiel 45.9)

Nós, Evangélicos Pela Justiça, repudiamos e rechaçamos quaisquer ações que comemorem o período triste de nossa história, que conhecemos como os “anos de chumbo”: a Ditadura Civil-Militar a que fomos forçados durante 21 terríveis anos. Tempos de censura, opressão, tortura, violência e silenciamento de todos que se levantavam contra um regime totalitário e perverso.

Rememoramos os irmãos e irmãs que tombaram na luta, entre mortos e desaparecidos, como Paulo Wright e Ivan Mota Dias, e tantos outros, sobreviventes dos porões e torturadores, como Zwínglio Mota Dias, Anivaldo Padilha e Jaime Wright, este último co-autor de uma das obras mais reveladoras das atrocidades desse período: “Brasil: nunca Mais”.

Desta forma, seguidores de Jesus de Nazaré, preso, torturado e morto por um sistema perverso e imperialista, não podemos compactuar com um governo que deseja rememorar esse tempo como um tempo bom e de grandeza para a nossa pátria. Foi um tempo sombrio, “página infeliz da nossa história”, que, se lembrado, deveria ser para não mais repetí-lo e como lição para nosso presente e futuro. E não celebrado, como propõe o atual Presidente da República.

Não compactuamos com tais celebrações, antes, em nosso dever profético, denunciamos que tais celebrações ferem a dignidade humana e, portanto, ao Deus criador de seres livres e feitos à sua imagem e semelhança.

Ditadura nunca mais!

Evangélicos Pela Justiça

Como a direita manipula o povo evangélico

As propagandas de whatsapp e os sermões no púlpito continuam indo na linha de um debate equivocado sobre questões de ordem moral e criação de um medo de que existem ameaças contra igrejas que não correspondem com a realidade.

Sobre questões de ordem moral, como aborto, LGBT, dentre outras o EPJ escreveu o texto Os Cristãos e a Esquerda .

Em relação as tais “Leis contra a igreja! que tramitam no congresso nacional”, não encontramos uma ameaça sequer que corresponde com a realidade.

Respeitamos o direito baseado na liberdade religiosa de denominações evangélicas entenderem que precisam se fazer representadas nos parlamentos, mas por que os argumentos que justificam o famoso “irmão vota em irmão” devem ser baseados em mentiras?

Por que tantas mensagens pregam exemplos de questões morais, generalizam para o campo da esquerda e nada se fala da direita como se fossem todos verdadeiros eunucos?

Porque as igrejas não denunciam que, de todos os parlamentares evangélicos, somente a Deputada Federal Benedita da Silva, do PT/RJ, votou contra a reforma trabalhista que destruiu direitos e empregos dos trabalhadores? Por que as igrejas calam e se omitem diante de situações de abuso, diante das ameaças à vida causadas pela miséria, pelo retorno da fome? É isso que é defender a família? Por que jamais se admite que há anos parlamentares evangélicos demonstram por ações e omissões que não honram valores elementares do discipulado de Jesus? Por que tão poucos dos parlamentares evangélicos hoje se comprometem com qualquer bandeira de real justiça para pessoas empobrecidas, vulneráveis, discriminadas? É para isso que o irmão deve votar no irmão?

Entendemos que evangélicos e protestantes devem votar nos partidos e candidatos que defendem um programa de governo voltado para os interesses do povo, como forma de expressar o compromisso com aquele que tem fome e sede. Como Jesus Cristo nos ensina em Mateus 25:35-45, dois grupos ficam surpresos, um porque fez e o outro porque não fez, mas a melhor resposta é: “Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” São esses que precisam ser eleitos, quer se digam cristãos ou não. Pelos frutos os conhecereis! (Mateus 7:16)

Queremos denunciar firmemente o uso de mentiras, exageros propositais com o fim de manipular, amedrontar e silenciar as pessoas nas igrejas evangélicas. Esse testemunho é o de quem de fato está mais interessado em servir a seus próprios interesses, por vezes, inconfessáveis. Discordância teológica não pode ser justificativa para fazer ilações e acusações levianas contra propostas que precisam ser conhecidas e discutidas, e não falsificadas, distorcidas em sua compreensão verdadeira, para justificar posições conservadoras travestidas de “posição da Bíblia”.

O desafio é contribuir nesse momento para aumentar a compreensão política dos evangélicos e teremos como consequência uma representação que defenda de fato os interesses do povo.

Felizes os que têm fome e sede de justiça!

EPJ – Evangélicos pela Justiça

Carta ao Presidente Lula

Resultado de imagem para lula

Nós resolvemos escrever-lhe brevemente, rogando a Deus que dispense toda Sua Graça, misericórdia e cuidado, na saúde, perseverança e segurança, a sua vida e dos seus familiares.

Estamos crentes, solidários e lutamos pela sua libertação nas vigílias, nas passeatas, nas orações e na militância política, conversando sobre o momento atual do nosso país, sobre o golpe contra a democracia e suas consequências, sobre as injustiças a que V. Ex.ª, foi submetido e sobre sua prisão política.

Lembramos o apóstolo São Paulo que, entre suas muitas prisões, na pior e mais dura delas, na cidade de Éfeso, invoca as forças que vem da ressurreição dizendo: “combati contra bestas” (I Coríntios. 15,32). Suas epistolas estão recheadas de histórias de perseguições, prisões e sobre as suas vitórias, em um contexto em que o que era religioso e o que era político não se separavam. Sabemos da diferença entre sua situação e as narradas por Paulo, mas destacamos a comum experiência de sofrer injustiça sancionada pelo estado.

A esperança se constrói. E construímos junto com o nosso povo. É evidente o sofrimento, a volta da pobreza, o recrudescimento das desigualdades e a não-conformidade com a inconsequente conduta política dos atuais governantes, golpistas e vendilhões do futuro das nossas gentes. É hora de resistência, sabemos disso. O seu vigor, lucidez e coragem nos inspiram, Presidente Lula.

Queremos que saiba, estamos juntos nos gritos por Lula Livre em todo país e nos inúmeros “Bom dia e Boa noite, Presidente Lula” que adentram sua cela todos os dias. Nossas vozes se igualam aos milhares de cidadãos que lhe querem bem, que aspiram por dias melhores e que estarão nas trincheiras contra toda intolerância e ódio construídos para derrotar as esperanças do povo. Cremos no Deus de Amor e Justiça. Portanto a vitória será vossa, será nossa, será de todos (as) os brasileiros (as).

Terminamos lembrando-lhe o texto do Profeta Habacuque “ Eis o soberbo! A sua alma não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá. ” (Hc. 2,4)

Um forte e carinhoso abraço,

Caminhemos pela Luz de Deus,

Até a sua Liberdade,

EPJ – Evangélicos Pela Justiça

Repúdio ao golpe de Estado no Paraguai

O grupo Evangélicos Pela Justiça (EPJ) e o Grupo de Estudios Multidisciplinarios sobre Religión e Incidencia Pública (GEMRIP) manifestam total preocupação e enérgica rejeição ante a situação que o povo paraguaio está atravessando após o golpe de Estado que distituiu o presidente eleito democraticamente, Fernando Lugo.

A gravidade desta situação é ainda maior ao ver que foi sobreposto um exercício “legal”, fundamentado em uma manipulação de mecanismos constitucionais. Portanto, cremos ser urgente a necessidade de repensar os fundamentos e as práticas dos dispositivos democráticos presentes nos países latino-americanos, com o objetivo de promover cosmovisões e práticas renovadas à luz dos novos rumos e buscas que vive nosso continente nos últimos anos.

Manifestamos nossa decepção com respeito à postura que diferentes expressões religiosas – especialmente cristãs – tomaram diante destes acontecimentos, seja através do silêncio sobre a sua gravidade como também oferecendo respaldo e legitimização institucional, discursiva e simbólica ao novo regime de fato.

Fazemos um chamado às organizações civis, instituições religiosas e eclesiais, movimentos sociais e espaços distintos de representação cidadã a mobilizar-se e a fazer ouvir suas vozes, denunciando estas ações, resistindo pacificamente e criando espaços de conscientização e sensibilização sobre as implicações do contexto, tanto âmbito nacional como continental.

Cremos e afirmamos que a democracia se constrói na abertura de um espaço plural e heterogêneo, sem a cooptação de nenhum poder hegemônico e absoluto que se imponha violentamente. Portanto, é nosso desejo e nossa luta que os mecanismos democráticos no Paraguai sejam restabelecidos atendendo e acatando à voz do povo que soberanamente exerceu seu direito através das urnas, manifestando a decisão de construir um projeto sócio-político e cultural diferente, inclusivo e plural, o qual foi violado por setores de poder que se viram ameaçados em seus interesses particulares e egoístas.

Evangélicos Pela Justiça (EPJ)

Equipe GEMRIP

Carta aberta do EPJ sobre a redução da maioridade penal

O “Evangélicos Pela Justiça”, grupo nacional de orientação evangélica fundado com o objetivo de envolver os evangélicos nos debates sócio-políticos que envolvem no país, vem a público manifestar sua oposição a iniciativas parlamentares que visam a reduzir a maioridade penal no Brasil, pelas razões que seguem:  

1 – A proposta de redução da maioridade penal enfrenta uma falsa problemática que relaciona crimes hediondos com adolescentes. No fundo deste debate está a idéia de explicar a criminalidade crescente, que hoje não é de exclusividade dos grandes centros urbanos, como responsabilidade de adolescentes “supostamente” bandidos, moradores da periferia, pobres, negros e excluídos socialmente daquilo que a Constituição Brasileira garante como direitos essenciais à vida humana. A discussão tende a identificar o adolescente como violento. O argumento de baixar a maioridade penal como forma de diminuir a criminalidade não se sustenta quando se analisa seriamente os dados sobre a violência no Brasil. Estudos têm mostrado que os atos infracionais cometidos por adolescentes se relacionam, na sua grande maioria, com furtos e pequenos delitos, sendo que assassinatos envolvendo adolescentes não chegam a 5%, do total de ocorrências. Ao contrário disto, as mesmas pesquisas mostram que o índice de adolescentes assassinados no Brasil é um dos maiores do mundo, sendo que as vitimas na sua maioria são pobres, negras, moradoras de localidades altamente precarizadas, as quais não têm sequer o direito de terem explicados os motivos que levaram ao seu extermínio;

2 – Não é verdade que adolescentes no Brasil não recebem punição, como distorcem os saudosistas do antigo Código de Menores. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), uma lei elogiada mundialmente e apropriada às condições de nosso país, com sua forte história de não-garantia dos direitos cidadãos, estabelece punição para adolescentes autores de atos infracionais. Ocorre que a punição no Estatuto é concebida numa visão pedagógica, já que o Estatuto busca superar o fracasso do sistema ocidental de punição, ao rejeitar a reclusão como instrumento privilegiado de ressocialização. O Estatuto entende que a punição para o adolescente deve se fundamentar no fato do adolescente ser alguém em processo de desenvolvimento físico, social e psicológico, e, portanto, a punição deve ser uma medida sócio-educativa que leve o adolescente a uma reconstrução de sua história de vida, dando-lhe oportunidade de refletir sobre seus atos quando estes estão em desacordo com as normas sociailmente vigentes. A punição, neste sentido, se dá considerando a gravidade da infração, que vai desde a liberdade assistida à internação e deve envolver a todos (família, comunidade local, sociedade em geral e Estado, que de alguma forma foram responsáveis pela situação do adolescente) no momento em que este comete um ato infracional.

3 – Mesmo nos casos em que a violência praticada por adolescentes está em questão, a redução da maioridade penal não tem se mostrado um antídoto contra aquela nos países que adotaram esse sistema. Nesses países não há diminuição de crimes com participação de adolescentes. Os estudos sérios têm mostrado que a redução da maioridade penal não tem tido o efeito desejado, levando-nos a entender que reduzir a maioridade penal no Brasil é uma forma da sociedade brasileira fugir do debate sobre as reais causas da violência crescente de nossa nação, que se encontra principalmente na estrutura social de um sistema movido pela concentração de renda que exclui milhões de homens e mulheres dos direitos elementares básicos e favorece a construção de valores sociais fundados na competição, na falta de solidariedade, na injustiça social, na criminalização da pobreza, na lógica de que “farinha pouco meu pirão primeiro” e na busca de solução dos problemas pela via violenta;

4 – Não é preciso ser especialista na área de criminologia para se perceber que o modelo de punição adotada não tem atingido seu objetivo. As cadeias brasileiras sofrem de superlotação e padecem da ausência de uma proposta pedagógica que ressocialize os presos. Além do mais a prisão, em si, não enfrenta as causas que levam à criminalidade. No que se refere ao adolescente, seu isolamento era um dos pilares do Código de Menores e isto não resolveu a problemática de jovens em conflito com a Lei, pelo contrário, só a agravou, como mostram as experiências das antigas FEBEM, que nada tinham de casas de bem-estar. Na contra-mão disto, as experiências desenvolvidas no Brasil em consonância com os parâmetros do ECA e a proposta pedagógica de sócio-educação, hoje sistematizadas no SINASE, que tem pouco tempo de existência, têm dado certo, alcançando índice de eficácia considerável, porque o foco da punição desloca-se para a idéia de reconstruir projetos, de trabalhar com o adolescente como um ser com potencialidades.

5 – Enquanto movimento de cristãos comprometidos com a causa da justiça e da cidadania democrática, entendemos que a orientação pedagógica, socializadora e restaurativa subjacente ao ECA é conforme ao entendimento cristão da permanente possibilidade de cometimento de erros e atos de violência e à necessidade de compreensão e correção. Isto na linguagem evangélica é referido como envolvendo um ciclo de confissão, perdão e reconciliação, os quais apontam especificamente para o reconhecimento do erro, a discussão dos seus efeitos sobre outros seres humanos e mesmo grupos sociais inteiros, e a necessidade de reparação por meio da mudança de comportamento e atitude, bem como pela ação concreta envolvendo vítimas e agressores. Práticas educativas e de justiça restaurativa são, nas condições contemporâneas, muito mais próximas aos ideais cristãos de igualdade e dignidade fundamental de todos os seres humanos (traduzidos na ideia do amor ao próximo) do que a lógica perversa da retribuição a qualquer custo por meio do isolamento, da tortura, ou da imposição das degradantes condições vigentes hoje no sistema de custódia e prisão brasileiro. O trabalho paciente e respeitoso, mas firme e assentado numa legalidade que tem mostrado mais capacidade de resposta positiva do que os “casos exemplares” muitas vezes transformados em estatísticas alarmistas, brandidos por profissionais de mídia e lideranças sociais e políticas conservadoras, é a saída. O discurso do endurecimento das penas e da redução da maioridade penal tem em toda parte apenas acirrado e expressado ressentimentos e fragilizado ainda mais o laço social entre os cidadãos e cidadãs.

Pelos motivos acima conclamamos a sociedade brasileira, especialmente os evangélicos e parlamentares, a se posicionarem contra a redução da maioridade penal e se envolverem na efetivação do ECA e do SINASE no Brasil, instrumentos essenciais para a garantia dos direitos da criança e do adolescente e da ressocialização, pois os adolescentes no Brasil são mais vitimas do que vitimizadores.

EPJ – EVANGÉLICOS PELA JUSTIÇA

Crie um novo site no WordPress.com
Comece agora